terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Para quem pede uma corrida no sapatinho

A preparação para a São Silvestre de Lisboa deste ano foi vigorosa. Perdão, escrevi vigorosa quando na verdade deveria escrever vergonhosa. A par de jantares e trabalho em excesso, a prática de actividades de corrida que não implicassem compras pelo meio foi quase nula.
Chegado a sexta e sábado, onde o convívio familiar puxa sempre mais uma rabanada do que é preciso e só mais um bombonzinho do que o estômago parece aguentar, a promessa foi feita “Este ano vamos lá ter calma, que no Domingo temos 10km para fazer”. Promessa feita, promessa quebrada, ainda que por margens menos indecorosas do que em anos interiores.

No entanto, lá pelas seis da tarde, há algo nas luzes de Natal da Baixa lisboeta que me faz esquecer este ritual nefasto de alarvidade natalícia e, chegado à linha de partida, se calhar é o excesso de açúcar dos dias anteriores me ajuda esquecer parcialmente o frio que se faz sentir.

Sabendo que a partida dos 3km e a dos 10km é simultânea e isso vai originar 5 minutos de slalom por entre caminhantes e corredores de marcha lenta, os primeiros 5km são feitos em calma progressão. Contornado o Terreiro do Paço, Rua da Prata acima até aos Restauradores e regresso pela Rua do Ouro, Rua do Arsenal e Cais do Sodré. Pronto, os primeiros 3km estão feitos e do frio passámos ao calor em dois tempos.
Rumo ao Jardim do Tabaco, passamos também por um momento de breu na Ribeira das Naus, óptimo para quem gosta de um bom mergulho no asfalto, que tive o prazer de dispensar. Já com Santa Apolónia quase à vista, voltamos para trás e pouco depois do Campo das Cebolas, eis o abastecimento, onde apenas bebo o mínimo, já que o ritmo e o facto de ser de noite, reduzem um pouco a necessidade de hidratação.

Feitos os 5km, é na segunda metade que se vai ver quem é sofrerá do “Síndrome de Azevias em excesso”. De novo nas luzes da Baixa, olha ali uma Avenida de Liberdade a rir-se para a malta e olhem que é para rir até ao Marquês e depois dar a volta para baixo. Passada curta e constante, postura direita e olhar fixo na velhota, com cerca de 200 anos, que por mais que eu pense que estou a aumentar o ritmo, consegue manter-se dois metros à frente. Resistindo ao impulso de rasteirar um idoso, utilizo o balanço na rotunda para a ultrapassar e ganhar andamento para a descida.

Com cerca de 2km para o fim da prova, relembro-me da importância de não descer à bruta, uma vez que depois de algum tempo a correr, tenho sempre a noção que é mais fácil controlar o ritmo a subir do que a descer. Mas pronto, estou de novo no Rossio e, com menos de 1km para o fim, sinto-me bem e é altura de acelerar com o que houver no tanque, para além de sonhos, bolo rei e bacalhau.

A motivação está lá e o ritmo também e é num ápice que me vejo prestes a passar por baixo do arco da Rua Augusta, com a meta a dois passos no Terreiro do Paço. Mais do que tempo final, que ainda assim é bom (menos 1 minuto que o recorde pessoal na distância), gosto da sensação que esta prova me transmite. É como se fosse uma purga dos excessos da época, mas em ambiente convidativo e pelo meio de um cenário que me é deveras familiar, por toda a história que lá fui acumulando ao longo dos anos. E assim, é fácil prometer que para o ano estamos lá outra vez.

É hora de rumar a casa, onde o merecido banho vai parecer uma prenda divinal e, porque não, retemperar energias com um sortido de sobras diversas, como só o Natal sabe proporcionar.

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