terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aprender a correr (ou o futuro do jornalismo)

Anda uma pessoa durante a anos a fio a escrever sobre coisas sérias até ao dia em que, por brincadeira, resolve escrever na primeira pessoa sobre correr e todos adoram. Que dirão a propósito os peritos no futuro do jornalismo?

Aprender a correr
Crónica de uma jornalista armada em atleta. De pé descalço

Sara Belo Luís

Não cheguei a arrepender-me, mas quase. Era o frio, o raio da massa de ar frio que me congelava as mãos. E era, sobretudo, a evidência de que, em matéria de corrida, há amadores e amadores. Há «amadores» que já foram velocistas, «amadores» experientes em provas de competição, «amadores» que correm 24 horas seguidas, «amadores» que fazem ultramaratonas. Há um mundo destes admiráveis «amadores» com aspas.
Depois, de modo caricato, existo eu, amadora sem aspas, mera frequentadora de ginásio, que há três meses, com um grupo de amigos que junta corridas e livros, comecei a correr apenas para contar. E que, agora, num momento de clara insanidade, me proponho a aprender a correr com Christopher McDougall (o americano que escreveu o livro Nascido para Correr, publicado em português pela Caderno) e, insanidade ao quadrado, a contá-lo nas páginas da VISÃO.


A TEORIA...
A partida estava marcada para as dez da manhã na entrada do Parque de Canoagem do Jamor. Do Estádio Nacional (vénia, vénia), onde até àquele sábado eu nunca tinha ido. Apesar de tudo estar bem sinalizado, não encontrei qualquer indicação sobre a dita canoagem. Não há, de facto, embora (disseram-mo depois) todos saibam onde é. Todos os habitués, claro, quem me manda a mim armar-me em atleta. No ponto de encontro, já lá estavam alguns daqueles «amadores» que descrevi. Pouco depois, também haveria de chegar João Garcia, o alpinista que, sem oxigénio artificial, já escalou todas as montanhas com mais de 8 mil metros. Meu Deus, que faço eu aqui? Era capaz de ir num foguetão só pela poesia de ver a Terra do Espaço, mas, no que diz respeito a experiências-limite terrestres, nem numa montanha-russa me meto.
Enquanto esperamos pelo «professor», fico também a saber que, na véspera, acabado de chegar de Nova Iorque, Christopher McDougall tinha percorrido a pé a distância entre o hotel onde estava hospedado, em Lisboa, no Marquês de Pombal, e Monsanto (via Campolide). Ei-lo agora no Jamor, de calções e lenço na cabeça, pronto para correr connosco. Ou por outra, nós com ele.
Antes de começarmos, «Chris» explica os princípios básicos da sua técnica de corrida. A tese sustenta-se na pesquisa que realizou com a tribo mexicana dos Tarahumara, conhecidos como os maiores corredores do planeta, e basicamente consiste em defender que se nos comportássemos como eles, também nós, ocidentais sedentários, seríamos capazes de correr 400 quilómetros de seguida. Trata-se de uma espécie de teoria do bom selvagem aplicada à corrida (digamos que me sinto um bocadinho mais à-vontade na Ciência Política). O que é que isto quer dizer? Quer dizer, por exemplo, que não é preciso andar a comer hidratos de carbono e, sobretudo, quer dizer que não deveríamos usar sapatilhas XPTO, Nike, Adidas e afins, as quais, segundo McDougall, nos impedem de pôr os pés no chão como deve ser. Em suma, sob o argumento de nos corrigirem a forma como assentamos o pé, esses ténis só nos prejudicam (o que ele não diria se visse os hematomas que tenho nas unhas dos dedos dos pés). McDougall advoga, por isso, que corramos descalços. Na assistência alguém pergunta o que é que ele entende por descalços. Descalços quer dizer descalços literalmente. Gelada até à raiz dos cabelos, não consigo estar parada nem mais um segundo. Por favor, deixem lá a teoria. Vamos correr?

... E A PRÁTICA
Ao todo, seremos uns 40 e «Chris» segue à frente. Não vai descalço, usa uns ténis com uma sola muito fininha semelhantes àquelas meias antiderrapantes das crianças. Calçam-se como se fossem umas luvas para os pés, mantendo cada dedo isolado do dedo do lado. O passo não é muito rápido, a esta velocidade de certeza que demoraremos mais de uma hora a percorrer dez quilómetros. Isto nem parece meu, mas por uma vez na vida não organizei absolutamente nada. Não tenho plano de treino, não sei quantos quilómetros vou correr e, sobretudo, não tenho maneira de o saber. Como deixei o telemóvel no carro, estou sem a playlist que costumo ouvir enquanto corro e, sobretudo, sem a aplicação (sim, da Nike) que me permite monitorizar as corridas (e no final receber felicitações do Lance Armstrong e da Paula Radcliffe, coisa que continuo a achar irresistível, confesso).
Observo o meu mentor, um metro e noventa e três de altura, e acho graça ao seu modo desconjuntado de correr. Os braços fazem um ângulo reto com o corpo, as mãos parecem estar penduradas. Ombros, braços e mãos abanam, abanam e abanam completamente descontraídos. Lembro-me do velho método psicoprofilático, que aprendi num curso de preparação para o parto e que, de vez em quando, tento aplicar à corrida.
Ainda consigo ouvir a terapeuta: «Cuidado, marque bem, registe bem, esta situação, em trabalho de parto, seria prejudicial para si e para o bebé.» É fundamental controlar a dor e, no parto ou na corrida, no útero ou nos gémeos, é fácil perceber que um músculo contraído é um músculo que, mais contração menos contração, mais quilómetros menos quilómetro, é um músculo que vai começar a doer.
Deixamos o trilho de gravilha e continuamos na terra batida. Como todos os dias faço a A5 para chegar à redação da VISÃO, conheço bem aquela curva da autoestrada depois de Carnaxide. Mas nem por isso pensei, neste dia de todas as imprevidências, que aqui não ia encontrar o mesmo tipo de terreno, amável e gentil, do Parque das Nações, onde costumo correr. O Jamor é um vale. E um vale tem altos e baixos, Sara. Pois é, eis-me numa subida, agora é que são elas. Recorro aos ensinamentos: quando o terreno é a subir, devemos esforçar-nos por corrigir ainda mais a nossa postura e, em vez de nos inclinarmos, devemos seguir direitos de forma a conseguirmos manter um ritmo aceitável.
Enfim, só falta correr descalça. Fico para trás para tirar os ténis e assim testar a hipótese principal de McDougall: a de que as lesões ocorrem porque andamos a correr calçados. Como boa aluna que sempre fui, sigo a lição. Tento pisar o chão apenas com a parte da frente dos pés e manter a cadência. Um dois três quatro, um dois três quatro. Gostava de ver a minha silhueta ao longe. Sinto que, em vez de correr, estou a saltitar a uma velocidade que prefiro desconhecer (ainda bem que não trouxe o iPhone). Como é correr descalça? A minha resposta não é simples: na pista é ótimo, no asfalto acho que até corro melhor, na relva (molhada) é bastante desconfortável e na gravilha... bem, correr descalça na gravilha é absolutamente insuportável. Sou uma liberal, cada um sabe de si e, para uns pés calejados, imagino que a experiência seja diferente. Mas eu, que tenho pés de menina, dispenso a sensação. Minhas queridas sapatilhas.

Texto publicado originalmente na edição 927 da revista Visão, de 9 de Dezembro de 2010

2 comentários:

  1. Gostamos muito do artigo da jornalista Sara Belo Luís na revista Visão.
    Foi uma agradável surpresa para nós que temos como visão e objectivos colocar os quadros e os profissionais do conhecimento a correr.

    Parabéns.
    Paulo Marcos
    Co-fundador e presidente do Run 4 Fun
    www.run4f.blogspot.com

    ResponderEliminar