quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Uma ode à alegria


E à primeira corrida a sério aprendi algumas coisas. Que isto de correr não é fácil, nem simples, nem linear, nem improvisável, nem assim-assim. Correr requer disciplina e quando ela nos escapa… o corpo é que paga. O problema é do trabalho que nunca tem horários certos e muitas vezes prolonga-se pelo fim-de-semana.

Eu sabia há muito que tinha uma corrida marcada para 19 de Setembro. Era a primeira. Pensava no assunto todos os dias. «É já no próximo domingo», pensei no início da semana. Mas, como já aqui se disse, a rentrée não perdoa. Sem dar por isso, as tardes foram entrando pelas noites. Com outros compromissos pelo meio, de sexta para sábado dormi apenas cinco horas. E de sábado para domingo, quatro.

À primeira corrida a sério aprendi que a velocidade da corrida é exactamente proporcional às horas de sono. Com o entusiasmo, até que me levantei rapidamente da cama, mas tudo o resto foi lento. Muito lento.

Além disso, aprendi outra coisa: se vais participar numa corrida, convém chegares cedo. Isto de estar «em cima da hora» não dá. Às 9 e 30, quando a linha de partida ainda estava a meio quilómetro, ouvi o tiro de partida. Comecei já em último. E com sono e o cansaço, correr de trás para a frente não é bom. Nada bom.

Se o cenário até agora vos parece mau, deixem-me acrescentar outros dois ensinamentos: não usar uma t-shirt escura em dias de calor (e o domingo acordou com muito sol) e levar chapéu, que a moleirinha agradece. Estava tudo feito para uma desistência gloriosa. E no entanto…

E no entanto ele move-se, o corpo. Há coisas inexplicáveis. E esta é uma delas: a mente tem muito mais força que o corpo e por isso lá consegui pôr-me em movimento. O Paulo, ao meu lado, parecia fresco como uma alface. De início, começámos ao mesmo ritmo. Nada mau. Ultrapassámos alguns domingueiros, que apenas queriam passear na marginal. Pelas minhas contas, o primeiro quilómetro foi percorrido em 5 minutos e 49 segundos. Abaixo dos 6, que é a nossa medida. «Muito bom», pensei eu. «Tu és grande», incentivei-me.

Mas depois lá veio a dita. A dor de burro quando foge. E logo antes do 2.º quilómetro. Que vergonha. Como é possível? Tentei rasgar um sorriso na cara para que o Paulo, entretido a ouvir música, não desse por nada. Com o agravar da dor, mudei de estratégia. Disse: «Campeão, acelera que eu hoje vou mais devagar». Ele, contudo, quis partilhar comigo a primeira corrida. E ficámos lado a lado. Os resultados foram desastrosos para o Paulo: 2.º quilómetro em 6 minutos e 29 segundos. O 3.º em 6 minutos e 42 segundos. Com todas as minhas forças, voltei a sugerir: «Grande corredor, não percas o ritmo. Eu já te apanho».

Era o apanhavas… Sozinho e abandonado à minha sorte, com o corpo a pedir descanso, pouco depois da passagem pela Parede arrastei-me pela estrada fora, como o Kerouac, mas por outros motivos. A minha meta, naquele momento, eram os cinco quilómetros. Fazer meia corrida seria uma grande vitória. E lá continuei: o 4.º quilómetro não apresentou quebras de ritmo, pois também foi feito em 6 minutos e 42 segundos. Mas o 5.º já foi em sofrimento: 7 minutos e 42 segundos.

Não havia alternativa. Tinha de parar. «É como aqueles livros que se lêem de enfiada», pensei. Mesmo nesses casos, nem todos os capítulos são percorridos à mesma velocidade. Algumas passagens requerem a nossa lenta atenção, outras requerem a velocidade de um Usain Bolt. Perante as circunstâncias, decidi-me a ler e a reler os próximos quilómetros. Com calma. Muita calma. Parei de correr e pus-me a andar. Devagarinho. Muito devagarinho. Para meu constrangimento, até fui ultrapassado por avós que estavam a fazer o seu jogging… anual.

Têm a certeza que querem saber os números? Ok, eu acedo: 6.º quilómetro em 11 minutos e 50 segundos. O 7.º em 12 minutos e 25 segundos. À entrada do oitavo estava decidido a fazer batota: apanhar o comboio, seguir até Cascais e aparecer sorridente na meta. Andava com este pensamento na cabeça, depois de ter mandado umas mensagens e uns e-mail para aproveitar o tempo, quando recebo uma mensagem assassina. Remetente: Paulo Ferreira. Texto: «Já está».

C@@£s adh’012 asdhj psda €§654 6#$51 23+dm @3aa sda as dfs çfmq 12ep fja sc,f m+0 23. Isso mesmo. Chamei-lhe esses nomes todos. Uns atrás dos outros. E repeti-o muitas vezes em pouco tempo. Uma hora de corrida e terminou? Não há direito. Isto não se faz. Grande amigo. Vês aqui o Ricardo em sofrimento e vais por aí fora. Mas deixa estar que eu te apanho. Ai vais ver se não consigo. Não perdes pela demora.

E talvez incentivado por uma banda sonora épica e imaginária, a meio do 7.º quilómetro recomecei a correr como se não houvesse amanhã. Aquele insulto não ia ficar sem resposta. Dores? Que se lixem. Sono? Há muito tempo para dormir. Cansaço? Trabalhasses menos. Agora sim, as queridas avós iam ver o que é correr. Podia estar na cauda da corrida, mas o fim seria memorável.

O 8.º quilómetro, que marcou o meu regresso à corrida, registou uma melhoria significativa: 9 minutos e 53 segundo. Mas o 9.º foi como a sinfonia do Beethoven: uma ode à alegria. Convém dizer que pelo meio havia uma descida, mas a minha velocidade era estonteante. Se bem me lembro, embora não possa confirmar, ainda ouvi aplausos, gritos de incentivo e um «és o máximo». Mas a memória, como se sabe, é traiçoeira. A verdade é que os números, como o algodão, não enganam: 5 minutos e 9 segundos no 9.º quilómetro. Classe mundial.

Foi então que um presságio me despertou. Um esforçado corredor estendido no chão e a ser tratado por uma brigada do INEM. O fim estava à vista, mas era preciso ter cuidado. Nesta corrida e nas seguintes. Que isto de correr não é fácil, nem simples, nem linear, nem improvisável, nem assim-assim. O último quilómetro, o 10.º, foi cumprido em 6 minutos e 12 segundos.

Conclusão: segundo os dados da organização, que podem ser consultados aqui, o primeiro classificado fez os 10 quilómetros em 31 minutos e 32 segundos. O Paulo ficou em 1578.º lugar. Eu, em 2075.º. Número de corredores que chegaram ao fim? 2166…

Mas não há felicidade comparável à de cortar a meta, sabendo que se corre para contar. E para aprender.

1 comentário:

  1. boa Luís!
    é preciso é chegar ao fim. Um Km corrido em 5 minutos tem tantos metros como um corrido em 10.
    E as cautelas que referes são para ter em conta no futuro: Quando já estamos cansados e somos acometidos de um surto inexplicável de energia, temos de saber doseá-la, por mais vontade que tenhamos de correr.
    Geralmente são mecanismos de compensação fisiológica que têm pouca duração e fim abrupto.
    Para a semana há mais, não pares!
    André

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