quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Runwatching

Embora hoje fosse dia de descanso, não deixei de ir ao Estádio Universitário, desta vez na condição de acompanhante da Miss Agosto. Sentado na esplanada, depressa me apercebi ser aquele o spot ideal para uma actividade similar à dos maduros que vão para os aeroportos ver descolar os Airbus ou para as reservas naturais assistir aos voos imóveis dos falcões peneireiros (Falco tinnunculus). Em vez de aviões ou aves de rapina, porém, aqui trata-se de observar humanos em corrida, essa modalidade desportiva que por esta altura já todos sabemos ser, não só saudável e belíssima, como absolutamente essencial para o nosso equilíbrio físico, mental, social, hormonal, parietal, cultural, etc & tal.
Uma tipologia dos corpos em movimento no Estádio Universitário, às 19h00 de um dia de Setembro (ou de outro dia qualquer), seria não apenas fastidiosa como necessariamente incompleta. Por isso, não a farei. Mas sempre digo que a diversidade é espantosa. Há principiantes com os bofes de fora e profissionais com ritmo de maratona, há meninas com rabos-de-cavalo baloiçantes (o Murakami fala disso) e rapazes barrigudos com a t-shirt toda suada, há sapatilhas último modelo e ténis manhosos adquiridos na loja dos chineses (por falar nisso, vi uma senhora asiática a correr com sapatos de napa plástica e tacão alto, coitada), há casais de sexagenários quase a passo e grupos de amigos a prepararem-se para a meia maratona, há iPods e pessoas que vão cantarolando as suas próprias canções (play-lists mentais), há cores que ferem a vista (atenção, não me refiro à Miss Agosto) e exemplos de sobriedade (só branco, só negro, só cinza), há quem meça as batidas cardíacas, as calorias gastas, os quilómetros percorridos, e quem se esteja nas tintas para tudo isso (só a estrada e o vento na cara é que importam), há quem transpire muito e quem continue sequinho ao fim de sete voltas à pista, há quem sorria e quem faça esgares de esforço; enfim, há todo um espectro de reacções e idiossincrasias que acordaram, durante a espera, o observador científico que há muito adormeceu dentro de mim.
O único problema é que eu agora também gosto muito de correr. E ao contrário do maluquinho dos aviões, que nunca pensou pilotar uma daquelas máquinas, ou do birdwatcher, que não aspira a planar nos céus, eu só me apetecia saltar para a pista. Mais do que pena ou admiração pelos corredores exaustos ou em forma, senti inveja. Nada que não se resolva amanhã.

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