terça-feira, 7 de setembro de 2010

Crónica de um eclipse

Não, não fugi para o Tibete. Não, não desisti. Estou só de rastos. Há cinco dias que quero correr, que tento correr, e não consigo. Malditos músculos das pernas, malditos traidores que transformam a planta dos pés em placas de chumbo. Má hora em que me armei em campeão e me pus galgar mais quilómetros do que devia (e, vendo bem, do que podia).
Mas voltemos um pouco atrás. Quarta-feira à noite, doíam-me as pernas. Nada de especial. O doer de pernas típico de quem começou a correr há pouco tempo, não tendo qualquer background atlético. Quinta de manhã, às sete como sempre, lá estava no Estádio Universitário. E foi então que a coisa descarrilou. Para começar, fui abandonado pelo iPod, que resolveu apagar-se (falta de bateria), deixando-me às cegas quanto às distâncias percorridas e sem música para dar alento. Depois, foram as pernas a abandonar-me. Quer dizer, elas continuavam no seu lugar próprio, entre os pés e o tronco, mas locomovê-las, está quieto. Dois troncos de madeira com raízes presas ao centro da Terra, eis o que elas pareciam. E eu, feito herói olímpico, forcei, insisti, obriguei-as a um esforço que elas pura e simplesmente se recusavam a fazer. Com algum sacrifício, lá fiz oito voltas à pista com duas pausas pelo meio (cerca de seis quilómetros). E dei-me por satisfeito.
O pior foi depois. As pernas cansadas, ofendidas por não ter respeitado o seu cansaço, entraram em greve. Na sexta, nem sequer tentei a sorte. No sábado, fui experimentar o caminho entre a Expo e a Ponte Vasco da Gama (ao fim do dia, cenário belíssimo), e confirmei os piores receios: respiração ok, cansaço nulo, mas pernas impróprias para consumo. Ao fim de dez minutos de corrida ininterrupta (em si mesmo um bom começo), tive que passar ao modo andante, aproveitando para pôr a conversa em dia com a Sara Belo Luís, que andava por ali a fazer o seu treino em grande estilo.
Porque não sou maluco nem quero arranjar problemas sérios, tomei logo ali uma decisão: só volto a correr quando me sentir capaz. Se for amanhã, é amanhã. Se for quinta, é quinta. Se for para a semana, é para a semana.
No fundo, devia ter seguido o conselho das minhas sapatilhas Nike: Just do it. E não Just overdo it. Enfim, erros de principiante. Nada que alguns dias de descanso, paciência e gelo não resolvam, enquanto me vou roendo de frustração ao assistir, dia a dia, às glórias alheias.

Sem comentários:

Enviar um comentário