domingo, 22 de agosto de 2010

Primeiras passadas

Tudo começou na quarta-feira, com uma espécie de test-run. Ou seja, o equivalente humano de um test-drive. Tal como experimentamos um carro para ver se corresponde àquilo que dele se espera (comportamento na estrada, potência, espaço interior, qualidade de construção, equipamentos extra, preço, etc.), eu fui treinar com a malta do blogue para o Estádio Universitário, a ver se isto da corrida, coisa que nunca fiz e julgava nunca vir a fazer, sempre era uma hipótese a considerar ou não.
Confesso que a desconfiança era muita. Nunca fui rapaz para grandes esforços físicos, raramente na minha vida fiz um sprint para apanhar o autocarro, nos campos de futebol e andebol remeteram-me sempre para a baliza (e lá sabiam porquê); em suma, estou muito longe de poder dizer, como quase toda a gente diz, «agora estou em baixo de forma, sabes, porque há 10/15/20 anos que não pratico desporto». À palavra desporto, as pessoas normais associam coisas como o basquetebol, o futsal, a natação, o salto à vara, o voleibol. Quanto a mim, o único desporto que levei a sério e pratiquei com alguma regularidade foi o xadrez (riam-se à vontade), já que a prática de judo num ginásio dos Bombeiros Voluntários de Almada, durante a pré-adolescência, não conta para a estatística.
Por tudo isto, repito, a desconfiança era muita. Desconfiança da minha capacidade e da minha motivação. Seria eu capaz de dar uma volta à pista sem ficar com os bofes de fora? Não estaria a arriscar uma humilhação pública? E mesmo que o treino não corresse assim tão mal, quereria eu repeti-lo, várias vezes por semana, inventando uma nova rotina para uma vida que já está a rebentar pelas costuras de obrigações e compromissos? As dúvidas multiplicavam-se e por isso decidi que o primeiro treino seria só para pisar o terreno. Literalmente. Nada de grandes proclamações, nem promessas de fazer uma mini-maratona em Setembro, nem cartazes de Zatopek na parede do quarto. E nada de estrear sapatilhas à maneira. As All Star castanhas, para um test-run, teriam de ser suficientes.
Bom, para resumir as coisas ao estafado slogan pessoano: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Estranhei os primeiros 200 metros, mas nos restantes três quilómetros, feitos de forma suave (um minuto a correr, outro a andar, com um forcing final que o Ricardo descreveu muito bem), o bichinho da corrida já se entranhara no meu corpo, mais concretamente nos músculos dos membros inferiores, que é onde o bichinho da corrida deve estar. No fim do treino, a decisão estava tomada: tal como o condutor que se deixa convencer pelo vendedor do stand e lhe diz «OK, fico com o carro», rendi-me logo ali e tanto o Paulo como o Ricardo perceberam que acabavam de ganhar mais um par de pernas para a sua causa.
Quinta-feira, foi dia de compras.
Adeus All Star castanhas:



Olá sapatilhas Nike Air Alaris+ 3:


Como as Nike ficaram mais baratas do que era suposto (vivam os saldos!), aproveitei o dinheiro poupado para comprar o famoso sensor que o Paulo Ferreira transporta alegremente debaixo da palmilha do pé esquerdo. A partir de agora, não será apenas ele a exibir gráficos janotas com as distâncias percorridas, os ritmos de passada, os records pessoais e não sei que mais. Sensor já tenho, agora só me falta o estofo físico para acompanhar o Paulo durante 12 quilómetros ou mais. Não é para hoje, nem para amanhã, nem para a próxima semana, mas lá chegarei.
Sexta-feira fiz o meu primeiro treino oficial, com os Portishead no iPod. Eram sete e picos da manhã. Circuito: Sapadores até à Paiva Couceiro, pela avenida General Roçadas. Objectivo: dez séries de um minuto a correr, com intervalos de um minuto a passo. Como não quero forçar demais nesta fase inicial, decidi que ia fazer só o que o plano de trabalho enviado por e-mail me pedia. No fim sentia-me bem e por isso fiz mais uma série de um minuto e uma de dois minutos, só para ver como é. Não custou muito e ainda me sentia capaz de correr mais um bocado, mas depois lembrei-me das sábias palavras do Ricardo: «deves parar quando sentes que já fizeste mais do que julgavas possível mas menos do que te sentes capaz de fazer».
Sábado à tarde, foi tempo de experimentar o primeiro treino acompanhado. No Parque José Gomes Ferreira, com as contingências que a Margarida já explicou tão bem, senti pela primeira vez aquilo a que chamam a parede. Algo que nos impede de prosseguir. Foi durante o quarto bloco de dois minutos. Aquela parte do circuito pode não ser particularmente íngreme, mas para mim pareceu a subida dos ciclistas à Torre, durante a Volta. O problema não é do circuito, é meu. Ainda me falta ganhar endurance em terreno plano, antes de me aventurar em trajectos mais complicados. Mesmo assim, consegui cumprir o meu objectivo: seis vezes dois minutos.
Hoje, domingo, é dia de descanso. E as pernas, que se queixaram o seu tanto na sexta, parece que já se começam a habituar ao esforço. Amanhã, recomeço. Às 07h00, logo ao raiar do dia. Só ainda não decidi onde.

PS - Entretanto, no sábado, decidi oferecer livros no miradouro do meu bairro. Seiscentos livros a voarem para novas (e boas) mãos em poucos minutos. Uma coisa bonita, digna de se ver. Mas podem ficar descansados: o livro do Murakami sobre corrida (cujo título original corresponde, palavra a palavra, ao nome deste blogue) não estava entre os volumes ofertados. Ficou no sofá do escritório. E, embora não tenha gostado lá muito dele quando o li pela primeira vez, agora talvez releia alguns dos capítulos. Com novos olhos. E novas pernas.

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