segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Os Meniscos e Os Lusíadas


Uns dizem-me que é do menisco. Outros dizem-me que é dos ligamentos. A todos digo que a dor vem do interior dos joelhos. E uma coisa é certa: mesmo se os dois médicos me garantem que a coisa não é grave, pelo menos já deu para o susto. Com a medicação adequada, posso estar em forma em oito dias.

Por isso, minha gente, me aguardem, não chorem mais não. Ponham esse astral p’ra cima, que o Carlos Lopes de Laveiras, ou a Rosa Mota do Rato, ou a Fernanda Ribeiro das letras, ou o Nelson Évora do jornalismo, ou a Vanessa Fernandes de trazer por casa, como quiserem, vai estar de regresso às pistas. Será como o Roberto – que já defende penáltis e é muita bom e afinal foi bem barato, só 8,5 milhões de euros – mas melhor ainda.

Tudo começou com uma ligeira dor. Ao início não me apercebi da gravidade. Num passado desportivo glorioso, que incluiu passagens pelo basquetebol, ténis, futebol e remo, nunca tive nada assim. Mas o tempo, esse nefasto escultor, encarregou-se de debilitar as minhas articulações. A vida sedentária, é certo, também contribuiu para agravar a situação. Eu sei que a beleza exterior esconde estes horrores físicos e que nas primeiras corridas apresentei bons índices físicos. O sistema cardiovascular não se queixou, pelo que corri uma hora seguida sem problemas, e os músculos estiveram sempre bem. O mesmo já não se pode dizer do menisco ou das articulações, consoante o ponto de vista.

O problema foi mesmo do futebol. Ao contrário da corrida, a bola requer outras habilidades. Saber acelerar e travar, golpear os rins, driblar o corpo, gerir um esforço físico com muitos picos ao longo de sessenta minutos. Em dois jogos, e apesar das grandes exibições, o corpo disse basta. É preciso descansar.

Mas eu não percebi logo. Ainda fiz três sessões de corrida, com aquela teimosia que só o entusiasmo inicial explica: esta dor passa. Mas não passou. Não é que tivesse dificuldade em correr, por que não tinha, sobretudo depois do aquecimento, mas a dor regressava no fim, com mais intensidade. E, aos poucos, impunha-se até na simples caminhada entre a cozinha e a sala de jantar.

A primeira solução foi a terapia chinesa. Para dar um ar multicultural ao drama. Pensei eu: um haiku ou outro, que é como quem diz, uma sessão ou outra de acupuntura e a dor desaparece. No entanto, o tratamento foi demasiado leve. Poucas letras e poucos versos para uma dose tão pesada de exercício físico. E em pouco tempo. É que bem vistas as coisas, só recomecei a correr a 1 de Agosto.

Pois bem: venham lá os bons dos químicos, da indústria farmacêutica internacional, que a malta quer é correr. E eis o segundo diagnóstico: o médico do Hospital de Santa Maria, nado e criado na Ucrânia, levantou-me as calças, com a devida autorização, olhou um bocadinho e disse: «isso não é nada». Apertou aonde a dor mais se fazia sentir, eu dei um grito pouco encenado, o bramido saiu mesmo cá de dentro, e num ápice a consulta terminou. Antes, dose de potro: um anti-inflamatório/analgésico mais um comprimido para as dores para oito dias de tratamento.

A bem da verdade, este foi o primeiro susto que tive. Tirando uma cabeça que rachei quando descia apressadamente umas escadas, passei ileso pela infância, juventude e adolescência. E andei por aí a conquistar moinhos de vento, muito antes de ter conhecimento das aventuras do D. Quixote. Nunca fui escuteiro, mas fiz-me aos campos e à natureza. Quase sempre nas periferias de Lisboa, o que explica os cenários: pedreiras, aterros, cimenteiras, urbanizações destruídas ou abandonadas, ruínas de uma margem sul desolada, restos de uma bela vista (sim, o famoso bairro de Setúbal, onde vivi durante quatro anos) que de bom só tinha o nome.

Se calhar estou a exagerar. O meu passado não é exclusivamente suburbano. Também houve aqueles clássicos que devem constar em todas as bibliotecas das memórias passadas. O estuário do Sado, o Parque Natural da Arrábida, as muitas dunas de Troia, a serra de São Luís, em Palmela, e mais uns caminhos verdes que percorri quer a pé (a correr) quer em duas rodas (de bicicleta).

Tudo isto explica o susto que agora apanhei. Ao ponto de ter feito uma promessa. Enquanto nisto penava, lembrei-me da última vez que fui correr, na estreia do Miguel Castro Caldas. Falou-me ele então de um projeto fantástico que um amigo, o actor António Fonseca, anda a preparar: a leitura integral e encenada d’ Os Lusíadas, num único espetáculo. «Isso é que é uma grande maratona», disse eu, surpreendido pela empreitada. O próprio António Fonseca terá tido a mesma reacção, quando teve tal ideia, já que pouco tempo depois decidiu ir ao médico. Homem prevenido, é o que é, pois não quis brincar com os versos do grande Camões. Prontamente marcou consulta, não em clínica geral, nem em ortopedia, mas em neurologia. Isso mesmo: foi falar com um especialista da cabeça, para ver se decorar todas as oitavas d’Os Lusíadas fazia mal ao cérebro.

Ao que parece, a resposta foi negativa. E diz o Miguel que o espectáculo está quase pronto. Por esse país fora já tem dito alguns cantos isoladamente, preparando a apresentação conjunta para 2011. «Isso é que é uma grande maratona», tenho vindo eu a pensar, agora que me encontro muitas vezes estendido na cama para não massacrar os joelhos (que começam a melhorar sob o efeito dos medicamentos).

E vai, não vai, eu que não sou nada destas coisas, muito menos supersticioso, começo a sentir a decisão a crescer dentro de mim. E de pouco valeu a minha vontade. A decisão foi tomada por si. Ei-la: «Se não podes correr durante dez dias (oito do tratamento, mais dois de margem de segurança)», disse a minha consciência, «podes pelo menos embarcar noutra maratona: ler Os Lusíadas e solidarizar-te com o António Fonseca».

Dito e feito: já vou no II Canto. Com esta medicamentação, para a alma e para o corpo, não há dor que resista.

Sem comentários:

Enviar um comentário