terça-feira, 17 de agosto de 2010

Motivação

Tens uma vida tramada, como toda a gente. Acordas cedo, despachas as crianças, se as tiveres, roupa para todos, pequeno-almoço para todos, sais atrasado como toda a gente - um relógio de ponto real ou virtual à tua espera. Desces a correr as escadas, o elevador, pegas no carro, pegas no passe, desces a correr as escadas do metro, o caminho para a estação em passo acelerado, um sprint final até ao comboio, a chegada à plataforma no último minuto ainda ajudado pelas escadas rolantes. Depois, a viagem, umas páginas de leitura, o leitor de mp3 em modo aleatório, a banda sonora inesperada para mais uns metros de caminhada da estação à empresa.

Sobes quase sempre pelas escadas, excepto de manhã cedo, há um relógio de ponto à espera, minutos ganhos à chegada podem ser úteis mais tarde. Começas tudo outra vez; na verdade, passas o dia a começar dias. Podes arranjar uns minutos para um café, desta vez três andares pelas escadas, mais três andares a subir no regresso. Se fores buscar encomendas, são quatro andares. E o almoço - ir a pé até ao restaurante, aproveitar para tratar de uns assuntos e mais umas voltas pelo bairro, com sorte tens um jardim perto, bancos para telefonemas mais demorados, mais umas páginas de leitura. Depois tudo de novo, tudo de trás para a frente: o caminho para a estação que tem glicínias na primavera, as canções que já não reconheces ao primeiro acorde, o comboio, mais páginas, o caminho da estação até ao metro que tem uma frutaria com cerejas boas no verão (nunca compras), a subida até ao bairro que fica sempre lá em cima, seja qual for o ponto por onde lhe queiras chegar. E pensas que nunca mais vais conseguir fazer exercício, porque acaba de começar um novo dia. Há gente à tua espera, gente pequena, que grita e salta e faz escalada pelo teu corpo como se não fosse teu, como se nunca te tivesse pertencido.

Começas um novo turno a partir das sete da tarde: mais banhos, outros banhos, fogão, jantares, longas argumentações, negociatas infindáveis. E pensas que nunca mais vais sentir aquele cansaço bom que trazias da piscina, nos tempos em que se conseguia nadar: o cabelo ainda húmido na raiz, o cheiro do cloro que parecia estar em todas as ruas, as pernas a estranharem a verticalidade. Pode ser que à noite, no sofá, te lembres vagamente dos tempos em que praticaste um desporto com convicção. Vamos dizer karaté, e logo atrás um grupo de jovens vestidos de branco a treinarem durante o serão, o preceito do cinto, a regra de se voltar de costas para os outros para compor o casaco do kimono, a saudação. E as noites de corrida fora do dojo, Monsanto, as manhãs de sábado e domingo no Estádio Universitário, apanhar o autocarro, o 63, na Estrada de Benfica e sair na última paragem para correr, correr, correr, correr em círculos nessa mesma pista que ficou para sempre gravada no meu joelho direito, cai lá quando tinha seis anos. A falsa tatuagem mantém-se, sobreviveu aos anos em que acompanhei o meu pai aos fins-de-semana, eu tentava andar de bicicleta sem rodinhas, ele corria, e porque corria e não me segurava o banco e só assim consegui aprender a pedalar sozinha. «Agora nunca te vais esquecer de como se anda de bicicleta.» Um risco e três pontos cinzentos-escuro que passaram pelos anos do karaté, pelos anos da aeróbica, da natação, os filhos, a ginástica de recuperação do parto. E pensas que nunca mais vais sentir os músculos porque não os usas, que os pés não fazem mais do que caminhar, que se queres ter outra vez o teu corpo para ti, resta-te um ginásio à hora do almoço, talvez só de senhoras, talvez com música má, muito provavelmente máquinas que se mexem por ti. E uma noite, no fim de todos os dias, calças os ténis e começas a correr.

3 comentários: