sábado, 21 de agosto de 2010

Há coca-cola no deserto?

Pois chega então aquele momento em que a corrida tem muito que contar. É como A Nau Catrineta, mas em versão nonsense, porque isto de correr também tem muito que se lhe diga. É como pensar que pode haver coca-cola no deserto. Mas isso foi só lá mais à frente. O melhor, como no outro dia, é começar por onde todas as histórias começam: na primeira linha.

Ontem foi um treino de final de semana, ou seja, uma corrida de recuperação. Sábado é dia de descanso. E recuperar é preciso. Porquê? Imagine que anda a ler, intensamente, um único escritor, seguindo as pegadas das suas obras completas. Lê um romance na segunda e outro na terça. Na quarta e na quinta a mesma coisa. E sexta-feira não será excepção.

A certa altura, já não sabe a quantas anda. Começa a trocar os nomes dos livros, os títulos, as personagens. Culpa o mordomo quando na verdade foi a governanta que matou o milionário grego. Deixa ele casar com ela, quando ele já tem outra, mas noutro livro. Diz que o Carlos da Maia ofereceu a famosa relíquia à sua amada irmã, garantindo a pés juntos que quem perdeu o americano foi o Teodorico Raposo, que queria oferecer à sua Titi um exemplar d’As Memórias de um Átomo. Põe na boca do Padre Amaro a famosa frase do Primo Basílio («A elas como S. Tiago aos Mouros»), fazendo deste um homem de brandos costumes.

Assim é a corrida de recuperação e o final de uma semana de treinos. Um amontoado de memórias soltas marcadas no corpo, como chagas de uma experiência feliz. A segunda-feira é uma dor na coxa, a terça, o joelho esquerdo que não dobra, a quarta, um pé com formas estranhas. E a quinta, uma articulação que se perdeu dentro de si, porque se tornou labirinto. E agora quando se sente, continuando o poema, que o Sá Carneiro não se importa, pois na altura também precisava de perder uma barriguinha, é com saudades de si.

Sexta-feira é então esse dia antes do descanso. Essa corrida suave, sem mais propósito do que ser levada até ao fim. Apareceram à chamada o Paulo, a cumprir um ciclo de vários treinos seguidos, este vosso escriba, como diziam os antigos, o Quintas, cujos dotes de respiração já são invejados por meio mundo e arredores, e a Catarina, que a certa altura afiançou que o melhor era irmos procurar umas coca-colas no deserto. Mas isso foi só lá mais à frente. O melhor, como em todos os livros, é continuar por onde todas as histórias continuam: pelos interlúdios.

Limites, limites, só havia um: o treino que a Catarina fez na quinta. Esses bravos 36 minutos tinham de ser batidos, ou não fosse a corrida uma escada sempre a subir. Refira-se, a propósito, que na quinta-feira a sua prestação, dizem-me, foi verdadeiramente digna de nota. Como aliás têm sido todas. Os estreantes que em massa têm aderido a este Correr para contar, mesmo os que não gostam de corridas, revelam uma forma física invejável. Nada como ter praticado desporto na infância e na juventude. É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. E rapidamente o corpo viaja no tempo, em busca dessa forma perdida.

E mal sabíamos nós que a Catarina era rotinada nestas coisas do desporto. Deveria constar do seu currículo os múltiplos desportos que outrora praticou, debaixo desse céu imenso que é o do Alentejo. Sabemos até, por fonte segura, que chegou a integrar uma equipa de corta-mato da região, que disputou os primeiros lugares dos torneios do distrito de Évora. Além disso, gosta de futebol: “Sou uma boa finalizadora”, diz-nos com aquele olhar fulminante com que às vezes o Cristiano Ronaldo (da fase pré-filho) contemplava a baliza dos adversários.

Fomos, por isso, enganados, eu, o Paulo e o Quintas. Estávamos prontos para o tal treino ligeiro, para deixar o escritor de lado, a repousar em cima da mesa de cabeceira, e eis que a rapariga puxou por nós. É a sofrer, é a sofrer, brincámos nós quando percebemos que a meta era mesmo os 40 minutos nonstop. Para se ter uma ideia do que isso representa, basta dizer que só o Paulo, nós últimos cinco dias, já correu mais de 50 quilómetros, segundo os registos do seus sistema nike/iphone. A este ritmo, no dia 26 de Setembro, não é a mini-maratona que vamos correr. Mas a meia. Ah valentes.

Para quem começa, a fórmula “um minuto a correr e outro a andar” tem-se revelado muito boa. É um ritmo pausado, que permite puxar pelo corpo durante o minuto da corrida e descansar logo a seguir. Além disso, dá sempre para aumentar o esforço, prolongando os minutos a correr mas mantendo os que são feitos a andar. A ideia, no fim, é fazer com que qualquer corredor, sem preparação prévia, consiga aguentar, em três semanas, 30 minutos sempre rolar.

Não é meta impossível. Basta olhar para este treino que agora se aproxima do fim. Todos sentíamos o desgaste nas pernas. O Quintas, que na quinta-feira também teve uma prestação de respeito, pouco falava. O Paulo testava a resistência, acelerando e abrandando o ritmo. Eu deixava-me ir. A Catarina continuava determinada: “Só paro aos 40 minutos”.

E ainda bem, pois a sensação de dever cumprido é inigualável. Com a habituação, a componente cardiovascular não se queixa e os quilómetros cumpridos transformam-se em etapas de uma crescente vontade de correr mais. Prosseguindo a comparação, é como ler um novo livro de um escritor que conhecemos bem. Não o Eça, que já cá não está, nem deixou à família nenhuma arca. Mas dos que vivem o nosso tempo. Voltar a ler, como voltar a correr, é sentir uma de duas sensações: reconhecimento ou surpresa.

Reconhecimento porque confirmamos qualquer coisa que tínhamos intuído, como o gosto por enredos centrados em poucas personagens na ficção do Bernardo Carvalho (BC) ou como as vantagens de manter a mesma passada. Surpresa porque, por vezes, descobrimos qualquer coisa de novo, como o narrador na terceira pessoa de O Filho da Mãe, que contraria os sete romances anteriores. Surpreendente também é ser introduzido nessa fabulosa arte de fazer alongamentos.

E diz a Catarina que, neste capítulo dos alongamentos, estamos nós cheios de sorte, pois ainda não nos revelou tudo. Já acabámos de correr, estamos a beber água para equilibrar as perdas e diz ela que ainda tem muito que contar, em particular sobre essa coisa de colocar a hipótese de haver coca-colas no deserto.

Incrível. É ver para crer. E para saber mais. Mas só na próxima corrida. Amanhã, às 19, numa pista qualquer.

1 comentário:

  1. Claro que há coca-cola no deserto:
    aquilo a que vulgarmente chamam areia não é mais do que resíduos de ovnis depois de três dias de molho em tanques de coca-cola.

    Alfadelta

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