quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eles também correm

(clique na imagem para aumentar)

Atletismo ou a arte de correr

José Luís Peixoto, 33 anos, é um dos poucos escritores portugueses a correr velozmente na pista internacional da literatura. Este ano conseguiu entrar em força no mercado editorial norte-americano com o romance «Nenhum Olhar» traduzido por Richard Zenith naquela que é a maior editora livreira anglo-saxónica, a Random House. Entusiasta do atletismo, foi no romance «Cemitério de Pianos» (Bertrand, 2006) que introduziu pela primeira vez esta temática desportiva, ao narrar os pensamentos de Francisco Lázaro. Quem? O célebre maratonista português, carpinteiro de profissão, que morreu devido à prova dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. «Tomei conhecimento da história de Lázaro através do meu pai. Ambos eram carpinteiros e sempre ouvi falar dele. Fez sentido para mim falar deste homem que correu a maratona em nome de Portugal. Uma metáfora da vida, da passagem do tempo e do período que dispomos para tentarmos ser o melhor possível.» Desde cedo, Peixoto deu provas no desporto. Em particular, no atletismo. «Entre os 5 e os 17 anos levei a corrida muito a sério. Fui federado e participei em muitas provas. Após uma longa paragem, voltei o ano passado a correr. Na verdade, o atletismo sempre teve um papel importante na minha vida. Trouxe-me a mais-valia de me fazer ver que a minha obrigação é dar o máximo de mim próprio. Nas provas de velocidade, olhar para o lado é perder tempo. Utilizo esse ensinamento em todos os aspectos da vida e da escrita.» O autor de contos, cronista e escritor tem por hábito correr cinco quilómetros à noite. Treina sozinho, dia sim, dia não, sem leitor Mp3, porque gosta de sentir «o vento nos ouvidos». «É no fim do dia, quando encontro uma certa limpeza mental. Cumpro o percurso num tempo que seja progressivamente mais rápido.» Refere o nome de Fernando Mamede como alguém que teve sobre si uma grande influência. «Recordarei sempre a corrida em que bateu o recorde mundial de 10 mil metros. Memorável. Mais tarde, a luta que Mamede travou com o aspecto psicológico fez-me reflectir acerca da forma como grande parte daquilo que fazemos, estando o atletismo claramente incluído nesse grupo, é uma luta connosco próprios.» Tem as melhores expectativas para a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. «Assistirei a tudo o que me for possível. Todos os que conseguem ter a disciplina necessária para chegar a esse nível são meus favoritos», remata.

Artigo de Bernardo Mendonça, com foto de António Pedro Ferreiro, publicado na revista Única (do jornal Expresso), a 7 de Junho de 2008.

Sem comentários:

Enviar um comentário