quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Do princípio, do fim e da continuação.

Antes da partida: Éramos cinco na pista, acabámos quatro e na realidade fomos seis. Confuso? O melhor é começar pelo início, como nas corridas.

Não há entusiasmo que não contagie os outros. E correr não é excepção. Pois então éramos dois há poucos dias, dando voltas ao Estádio Universitário, vendo as vistas e os governantes que por lá passavam, fazendo contas às mini e meias maratonas que havemos de correr. Depois veio o blogue e o facebook e o twitter. E ainda há quem acredite que as redes sociais não estão a revolucionar o mundo. Post para aqui, post para ali, mensagem para cá, mensagem para lá, e aos poucos a música do Zeca Afonso nunca fez tanto sentido nos dias de hoje: Venham mais cinco. E apareceram mesmo.


0 a 10 minutos:
Marta Silva, Nuno Quintas e Zé Mário. Todos vestidos a rigor e com muita vontade. Motivação não lhes faltou, nem no fim, depois do esforço da corrida. Como dizia o Beckett, pois convém sempre citar alguém sério, que este é um blogue que pensa a corrida, “o princípio é no fim e no entanto continuamos”. Depois do primeiro desafio, eles provaram que querem continuar.

Não houve tempo para grandes aquecimentos, embora eles sejam necessários. Uns alongamentos, um girar de braço, umas indicações dispersas e vamos embora que se faz tarde.

Os 60 minutos, cumpridos em várias fases, começaram a passo. Eu meti na cabeça que ia fazer tudo a correr, mas abrandei sempre o passo para acompanhar os estreantes. O Paulo dava as indicações: um minuto a correr, outro a andar. Se o descanso era lento, o passo da corrida era de respeito. As coisas, assim, equilibraram-se.

Foi por isso que os primeiros dez minutos pareceram um passeio no parque. Estávamos (até os novatos) convencidos que as coisas iam ser fáceis, o que até nem estava longe da verdade. Mas depois o corpo reclamou.

10 a 20 minutos:
Correr em grupo tem destas vantagens. Não se dá pelo tempo passar. Só quando se pergunta pelo número de voltas que já se deu. Dez minutos passam num instante. Entramos na fase decisiva. Naquele quarto de hora final da primeira parte em que as grandes equipas devem resolver o jogo, antes de irem para intervalo. Ou seja, é no corpo do romance que o grande escritor se revela. Um bom início prende o leitor, um excelente fim deixa sempre uma marca, mas no miolo é que se conquista o público. Love it or leave it, como se diz lá na terra do Ricardo Carolas, que nos surpreendeu com a vontade de querer correr connosco. À distância. E ainda há quem não tenha facebook. Não sabem o que perdem.

Serve então esta pequena reflexão para dizer que para quem corre 30 minutos – como era o plano previsto para os iniciados – a fase crucial é esta: entre os 10 e os 20. Ou começam a pensar: o que ando eu a fazer aqui, eu que tenho uma vida e de ir ao supermercado ou de acabar um texto ou um livro ou de me encontrar com aquele amigo que re-encontrei no facebook (conhecem o site?). Ou então sente: epa, isto é mesmo bom, muito bom, por que raio perdi eu tantos anos sentado no sofá e na esplanada e no carro. Quem assim pensa não deixa de recordar esses tempos míticos da juventude, às vezes os melhores, não passados à frente de um urinol qualquer, como diria o Manuel de Freitas, que não consta que corra, mas num campo de desporto ou numa corrida.

Marta Silva, Nuno Quintas e Zé Mário: os três alinharam pela última hipótese. Ela porque correu em tempos, o Quintas porque praticou desporto durante anos (incluindo ioga, o que lhe permite controlar a respiração, logo retardar o cansaço) e o Bibliotecário de Babel porque também conheceu a glória desportiva em outros tempos.

Sem queixumes, seguiram o ritmo, imposto por um Paulo entre o pedagógico e o instrutor de treino sem misericórdia para com os pupilos. Os minutos passaram, a conversa rolou, como convém para se ter noção do esforço despendido. Dizem até os especialistas que a melhor forma de se ter uma ideia do limite é cantar o Happy Birthday to You. Estivemos todos de parabéns.

20 a 30 minutos:
Deve ter sido uma autêntica quimera aquela que o famoso corredor, que deu origem à Maratona, com a mensagem da vitória dos atenienses na cabeça, teve ao ver a Acrópole. Era sinal de que estava perto. Que a missão da sua vida estava quase cumprida. A última etapa de uma corrida é isso: percebermos que estamos no fim. Mesmo que seja só de um capítulo, pois amanhã pode haver sempre mais.

Para estes novos corredores o fim estava à vista. Os minutos passavam, o suor dava ares de sua graça, porém continuavam. Nada diminuiu a passada. A contagem das voltas chegou a parecer desnecessária, tal era a forma física que mostravam. No entanto, o cansaço tem as suas regras e convém não exagerar no primeiro dia.

Só que eles não sabiam a história toda. Aproximaram-se do fim com um sorriso no rosto, até ao momento em que ouviram: só mais uma volta. Sem tempo para pensar, sem saberem se conseguiam ou não, aceitaram o desafio. O último do dia. Ao bater de umas palmas aumentámos o ritmo e lá fomos, formosos e seguros, uns mais do que outros, é certo, embora sempre convictos.

E a meia-hora chegou ao fim. Prova superada. Marta Silva e Zé Mário deram, com satisfação, por terminada a sessão. O Nuno Quintas, esse, fez-se de novo à luta.

30 a 40 minutos:
É que quando uns acabavam o treino, outros começaram, e com esta informação as contas começam a bater certo. Com uma pontualidade britânica, Helena Ramos apareceu numa das pontas do Estádio Universitário. Apanhou-nos na altura das despedidas e vinha com o vagar de quem ainda não começou a correr. Mas nestas coisas, já se sabe, não há tempo para olás e para beijinhos. Vamos embora que se faz tarde e os quatro, com um surpreendente Quintas, iniciámos a segunda fase do treino.

Já aqui se escreveu que o objectivo de ontem era 60 minutos nonstop. Ou pelo menos um treino contínuo durante uma hora, em esforço crescente. Não sei se a Helena leu esse post, mas sofreu no corpo as consequências. Vinha fresca e puxámos por ela. O Paulo mudou de estratégia. Três minutos a correr e um a andar. Eu sempre a correr. Depois, quatro minutos a correr e um a andar. No fim, já corríamos todos sem referir o assunto da paragem.

Houve até tempo para umas escadas, porque a coisa assim fica mais divertida. Correr sempre no mesmo circuito é melhor para o corpo. Pois se a rotina é o mal do quotidiano, é ao mesmo tempo outra dessas leis não escritas do corpo. Por isso, na fase final, variar é bom. E por lá andámos. A Helena, que se esqueceu das lentes, hesitante, os outros subindo como se procurassem o topo da cúpula do Vaticano.

40 a 50 minutos:
Alguém grita por água. E vamos à procura dela. Há quem goste de beber, há quem passe bem sem ela, durante o treino. Essa vontade, no entanto, indica já a fase em que o treino começa a doer. O que é fácil de explicar. Quando brincamos hoje ao Farmville, no facebook (com tantas referências ao site das caras, parece que tenho uma avença com a empresa de Mark Zuckerberg), não temos presente as consequências devastadoras que a agricultura teve para o corpo humano. É que o homem, lá nos tempos do paleolítico e afins, habituou-se a queimar calorias. Saía para caçar, num jogo do gato e do rato que podia durar vários dias ou semanas. No Inverno, quando fica mais recolhido, acumulava a energia necessária que depois gastava no resto do ano. Era a lei das compensações que a agricultura veio destruir, abrindo lugar ao sedentarismo e, pior ainda, à política.

Daí que os nutricionistas muito ou pouco conhecidos, chineses ou sul-americanos, com alguns portugueses pelo meio, aconselhem sempre uma coisa: um passeio de 30 minutos por dia. É a partir desse momento que o corpo recupera essa lembrança antiquíssima e começa a consumir não as calorias do dia, mas as que habitualmente crescem à volta do estômago. E quem não o sentiu no corpo que atire a primeira pedra. Paulo, Quintas, Helena (que sofria por ser o primeiro treino) e eu lutámos contra a natureza e prosseguíamos a corrida. Sem a alegria do fim, sem a força do início, dos 40 aos 50 minutos demos tudo.

50 a 60 minutos:
Ó mar salgado, quanto do teu sal são suores de Portugal. Bem sei que o verso não é assim. Não seria a mesmo coisa, nem citado por aí como uma grandeza portuguesa, um fado lusitano que nos permitiu dar novos mundos ao mundo. Porém, esta corrida daria para impressionar donos de muitas salinas por esse país fora. E é a caminho da meta que o desgaste mais se faz notar.

Aqui, o olhar para o relógio e para o telemóvel é mais regular. Os quatro corredores que sobreviveram deixam de formar um grupo coeso. Uns avançam, outros recuam. Paulo continua a gerir o esforço coletivo. Dá indicações, mostrando-se em forma. Helena perde-se nas contas e nas paragens. É engolida pelo fim do treino, mostrando-se à altura. Quintas terá, em próximas sessões, de explicar essa arte de controlar a respiração, pois não aparenta cansaço. Eu sigo sem pensar.

“O princípio é no fim e no entanto continuamos”. Mas agora, passados 60 minutos e dois segundos, só recomeçaremos amanhã. Até lá guardamos a satisfação de uma boa corrida. E o bem-estar do corpo.

4 comentários:

  1. fiquei cansada só de ler :) um dia também eu me desloquei até à avenida brasil para correr, mas durei muito pouco

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  2. É que nem falta a referência à poesia contemporânea. És grande, Ricardo. Mal posso esperar por correr contigo, ando a treinar para isso.

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  3. Ena, pá. Que belo texto, Ricardo! (E que memória prodigiosa.)

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  4. Um texto cheio do teu humor, fantástico e súbtil. Força à equipa!

    Carolina

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