terça-feira, 17 de agosto de 2010

Do começo.

Aos 18 anos, praticava natação, jogava ténis e corria (o futebol tinha ficado lá atrás). Corria muito. Para o autocarro, para casa, às voltas na pista de atletismo da lavra da mesma empresa que, durante anos, ao mesmo tempo que empregava metade da população local, brindava os telhados e os vidros do carro com uma boa camada de cimento (que, ao que dizem as gentes da terra, sai bem com vinagre). A mesma empresa entupia ainda os pulmões dos autóctones, pelo que a cedência de uma pista de atletismo (e piscina) surgia assim como uma espécie de retribuição quase poética, que todos aqueles que não se interessavam por outro tipo de pó aceitavam de bom grado.

Recordo-me de correr três vezes por semana com umas sapatilhas bem rascas que três contos podiam comprar. Agora, da mesma forma que deixei de fazer campismo e esperar em filas quando posso tratar tudo atrás de um monitor, decidi também que poderia gastar 17 no lugar de 3 contos, somar-lhe um sensor de 6, uns phones de 4 e em breve uma pulseira para controlar melhor os ritmos.

Mas no essencial não é o equipamento que faz a diferença. Aliás como na escrita. Claro que umas boas sapatilhas melhoram o desempenho e não tenho dúvidas que uma boa caneta dará maior prazer ao exercício da escrita (no meu caso, dá-me ainda o plus de tornar a letra legível), no entanto, o que está por detrás do exercício da corrida (como o da escrita) não tem nada que ver com equipamentos caros. Tem tão só que ver com o prazer da superação individual. De acharmos que conseguimos dar mais uma volta, mesmo que o corpo (ou será a mente?) nos peça descanso e diga que talvez seja melhor parar. Tem que ver com a sensação de impunidade absoluta face às coisas mutáveis da vida. Seja um amor, uma decisão profissional. Pouco importa. Naquele momento, tal como o escritor face à folha de papel, joga-se a vida. Sabendo que por esses juízos e acções seremos julgados. E mesmo que seja um juízo brando, não queremos que nada do que se passa entre nós e os sapatos (entre o texto e o sujeito), assuma uma importância menor do que sermos condenados por uma decisão errada. De outra forma, seria fazer batota.

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