domingo, 22 de agosto de 2010

Depois dos escapes, o churrasco.

Ontem, sábado, era dia de baptizado e não de casamento, como a música de Amadou & Mariam que ilustra este post. Há muito tempo que ando pela cidade de olhos mais ou menos abertos, sempre à procura de novos jardins e já tinha reparado que havia gente a correr no Parque José Gomes Ferreira. Quase podia ser um bosque, não fosse o domínio dos eucaliptos (também tem pinheiros mansos e oliveiras). O terreno é acidentado mas os caminhos possíveis são razoáveis - pelo menos para as minhas sapatilhas de marca branca habituadas a correr nos passeios de paralelípedos. (É oficial: decidi-me pela designação sapatilhas, por uma motivação afectiva, honrando assim as minhas raízes portuenses, e aviso já que também digo riquinho, se for caso disso.)

O parque é bonito, tem o nome de um poeta e bom equipamento infantil (já testado), logo à entrada - pode vir a ser útil. Aos fins-de-semana é tomado por gente que o ocupa como se tratasse de um quintal privado. Ali dispensa-se o iPod: é bem possível que os frequentadores habituais do local tenham levado geradores de electricidade para alimentar potentes colunas. Ontem, as faixas de Buraka Som Sistema podiam desde logo ser substituídas, com alguma eficácia, pelo kizomba original que animava o maior dos grupos de piquenique e se ouvia nos bairros circundantes. Como corro devagar - jogging, diz uma amiga minha, se corres devagar é jogging -, posso deter-me nos tipos. As pessoas deste piquenique não calçam sapatilhas, nem ténis, saltos agulha e sapatos reluzentes abundam. Há calçado de verniz ou imitações disso. Há lábios pintados, sombras brilhantes sobre as pálpebras, muito gel no cabelo, muitas horas de cabeleireiros especializados. Os fatos são demasiado domingueiros para um sábado, demasiado cintilantes para um mero aniversário. A ausência de uma noiva faz-me concluir que só pode tratar-se de um baptizado - há muitas crianças, mas as nossas, felizmente, ficaram em casa, correr é uma ocupação rápida o suficiente para não nos exigir uma logística demasiado complicada para a vida familiar.

O treino vai a meio e concluo que gosto da pista, apesar de as pessoas do piquenique grande (o baptizado, ainda acredito nessa hipótese, mesmo com o coração a bater mais depressa, muito mais depressa) terem ocupado parte dela e a passagem dos corredores não os convencer a desviarem-se. Há convidados olham para nós com uma certa indiferença, miram-nos vagamente durante um diálogo que não interrompem e parecem que partilhar uma mesma ideia: «quem é esta gente a correr no meio da festa?». Estamos quase a terminar e tenho a certeza de que conseguimos encontrar um percurso relativamente plano, ainda que o Zé Mário e o Paulo duvidem da minha noção de inclinação. Não achei as subidas mais inclinadas do que o final da Avenida General Roçadas. Mas não tenho sensor que registe inclinações e outros acidentes e pode ser mesmo só por isso. Vim correr com os rapazes dos gadgets, eles têm números para tudo. A minha impressão é a do meu folêgo e a verdade é que estou cada vez menos ofegante, verifico isso sempre que subo os três andares do prédio, carregada de filhos ou compras.

A corrida no parque não foi tão boa como cheguei a pensar que podia ser. O meu primeiro problema de expectivas tinha de chegar. Cheguei ao fim sem perceber quem era o jovem baptizado ou os seus pais ou padrinhos, eventualmente devia ter dado mais umas voltas - correr, caminhar, correr, caminhar. Pior do que a música, as pessoas, as subidas, era mesmo o cheiro. Libertei-me dos escapes, mas tive de suportar o churrasco. Logo eu que deixei de comer carne de porco grelhada já lá vão duas vidas. Mesmo assim, correr ainda é maravilhoso: foi um bom recomeço, treinar com companhia dá outro ânimo, a luz do fim de dia é sempre comovente. Consegui o objectivo proposto e ainda correr a duração de uma faixa. Não foi esta, mas podia ter sido:



Hoje há mais. E nenhuma expectiva ou plano. Talvez consiga ir ao Estádio Universitário à hora marcada. Ou talvez comece a semana mais cedo, outra vez a correr no bairro. Só uma certeza: é dia de correr e quero conseguir correr duas músicas de seguida. Podem ser curtas, pode ser numa descida. Mas em Lisboa, não em Bamako.

Sem comentários:

Enviar um comentário