segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Correr para observar

"Enquanto não vir um número superior a 12,03 Km, ninguém me tira daqui!" A frase é de Paulo Ferreira, o primeiro a começar o treino e o último a acabar, apesar de queixas persistentes de dores nos joelhos. Ah valente, é o mínimo que esta observadora externa pode dizer. Mais uma vez, não ficamos por aqui, em matéria de frases bombásticas...Só que estas foram ouvidas na pista.

Ontem foi um dia especial na vida desta correspondente. Os mandamentos de qualquer comentador obrigam a observação no terreno. Por isso, como prometido, marquei presença num dos treinos do intrépido movimento. Foi ontem ao final da tarde, no Estádio Universitário. Tal como outros elementos do grupo, não tinha esperança de ser convertida à corrida. E ao contrário desses mesmos elementos, de facto não fui. Valeu pela experiência, pelo companheirismo e pelo privilégio da observação in loco. Outros aspectos positivos: cumpri o treino para americanos de 150 Kg, não tive um ataque cardíaco e quase nunca me lembrei da minha miserável condição de fumadora. Parece que a idade ainda perdoa.

Mas vamos ao que interessa. Pude testemunhar, ao vivo, o entusiamo inabalável destes corredores, que passo a nomear: Ricardo Duarte, o perseguidor de coca-colas no deserto, Paulo Ferreira, o recordista teimoso, Nuno Quintas, o homem da respiração assistida e, last but not the least, Margarida Ferra, a desportista mais glamourosa do dia (t-shirt rosa choque e bolsa a condizer não é para todas as sensibilidades, é prova de sofisticação feminina). A corrida começa suave, o grupo avança em bloco e conversa-se. Depois, os ritmos individuais impõem-se e nota-se alguma dispersão. Durante o treino, Quintas desapareceu. Não, não houve crime no parque. Vim a confirmar depois, com o próprio, que a solidão é uma das consequências do controlo respiratório. O atleta esquece-se do que está à volta, segue caminhos inesperados, e nem dá por isso. É que este homem das letras praticou yoga, e este é o segredo de uma corrida sem rosetas na cara, água a escorrer por todos os poros e uma expressão pre-mortem, que caracteriza a exaustão dos menos hábeis. Como foi notado por uma ilustre amiga e espectadora da corrida, "ele chega ao fim como se tivesse ido ali dar uma volta". Eu não diria melhor. Mas Quintas não é apenas alguém que respira espectacularmente bem (*esta observadora não escreve segundo o novo acordo ortográfico; não é ideológico nem nada, é só por uma questão de hábito). Quintas é também o poeta da corrida: " É como se deixassemos aqui a alma, deixamos tudo". Ora meditem, porque é caso para isso.

Ricardo Duarte, por seu lado, é o apóstolo mais empenhado na conversão do próximo. "Não negues à partida uma corrida que desconheces", repetia sempre que passava pelo nosso público. O nosso público era apenas a referida amiga, que já prometeu comprar umas sapatilhas e juntar-se ao movimento. Decidi não a identificar antes da grande estreia na pista de atletismo. Julgo estar a defender a sua glória pública. Porquê ser conhecida como "uma jornalista da Lusa que assiste aos treinos", em vez de "uma fantástica aquisição que marcará a diferença no Correr para Contar"?

E caso não tenham notado, usei o termo sapatilhas. Pois é, parece que até agora o Norte impôs a sua tradição e mesmo os mais lisboetas (ser lisboeta tem graus) adoptaram a palavra. Newcastle, como é que é, nada a declarar? (sem querer lançar a polémica...)

A tarde acabou com Paulo Ferreira a chegar aos 12,57 Km, em 1h19m. O sprint final foi um solo admirável, que aconteceu enquanto os restantes confraternizavam na esplanada do parque. É nítida a determinação colectiva, o entusiasmo e a felicidade de todos. E há alguma coisa mais importante do que a felicidade?

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