quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Correr no bairro

A melhor hora para correr é quando é possível. Acho que expliquei como a corrida não foi uma escolha, mas a minha única hipótese, quase uma espécie de redenção (aqui tão perto, na rua de baixo e eu não a via), uma decisão daquele tipo que nos toma a nós e não o contrário. As coisas não acontecem por acaso. Ou acontecem coisas e nós gostamos de achar que não é por acaso, que duas vezes no mesmo dia a mesma música no iPod é sinal que deve ser partilhada com o mundo inteiro, o nosso pequeno mundo inteiro de meia dúzia de amigos reais e centenas de amigos virtualmente disponíveis e vizinhos. O Paulo é meu vizinho. Quando o Paulo me falou em correr, respondi que tinha pena de não conseguir fazê-lo, mas que preferia nadar. Quando o Paulo se ofereceu para correr comigo à única hora que eu tinha disponível, fiquei sem argumentos. A vida é sempre mais fácil quando ficamos sem argumentos. Um mail que nos chega todos os dias à caixa do correio, com frases de motivação e objectivos diários, pode deixar-nos sem argumentos. As pequenas e saborosas vitórias dos outros que passamos a invejar um bocadinho por terem um rumo, por correrem para algum lado, podem deixar-nos sem argumentos. O bairro onde o Paulo e eu vivemos é muito acidentado, mas há uma rua mais ou menos plana, de passeios largos, um dos lados praticamente sem movimento. Uma avenida: isso deixou-me sem outra resposta senão abrir o armário, olhar para umas sapatilhas antigas e pensar que não foi por acaso que escolhi calçado de corrida numa loja de desporto há três anos. Cumpro o que é suposto em cada dia de treino - às vezes posso ir pouco mais longe, o suficiente para achar que me superei, não demasiado para não me sentir culpada se os músculos me doerem no dia seguinte. É mais ou menos como sair à noite e voltar a casa no momento certo - apetecia-me ainda dançar, mas uma cerveja a mais e a noite vai fugir ao meu controlo e não há acaso que me salve.

Ontem o Paulo não veio (há vida que se pode fazer a andar e ainda bem).Vai haver outras noites assim, foi o que pensei. Felizmente, o iPod tem pelo menos três possibilidades de controlo de tempo (e passos e calorias, se quisermos acreditar na tecnologia, mas preferia saber a distância percorrida). A motivação está sobretudo em nós, os outros ajudam e a música também. E fui, com o meu objectivo do dia, em modo aleatório. Começo a habituar-me aos melhores percursos, a criar o meu próprio circuito na cidade, a jogar com as subidas e descidas, um outro bairro, uma outra avenida que se me oferece pela velocidade com que a piso. No iPod, o modo aleatório. Não sei se foi o acaso, se o pedómetro está ligado à biblioteca de canções, mas devo agradecer a noite de ontem à sequência musical. Buraka Som Sistema, Jamiroquai, Arcade Fire, Manu Chao, Abba. (Abba não. Negarei, claro, fora deste blogue que tenho Abba na playlist geral.) Pergolesi, Ketih Jarrett, Chet Baker, Nina Simone, Bernardo Sassetti e mesmo Penguin Cafe Orchestra não apareceram. Espero por eles num desses dias em que seja mais fácil correr (nunca será), um dia em que consiga correr seguidos 60 minutos e dois segundos, em que não corra de noite, junto aos autocarros, sobre a pedra da calçada. Verei nisso uma manifestação do acaso, e pode ser que por isso fique sem argumentos para pôr em prática planos adiados.

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